O problema sou eu
E no arrastar dos dias, enquanto ainda me levanto dos meus próprios tropeços, me pergunto: O problema sou eu?
E no arrastar dos dias, enquanto ainda me levanto dos meus próprios tropeços, me pergunto: O problema sou eu?
Como eu vim parar aqui, se nem ao menos sei onde tudo começou? Quando eu fui realmente feliz, se poucas vezes sorri feito bobo sem nem perceber? O problema sou eu, mas o problema é você também. O problema sou eu que acredita demais e a decepção então vem em dobro. O problema é você que mantem tanta fé nas pessoas, a ponto de se cegar com expectativas que não existem. A ponto de acreditar que elas nunca irão falhar. O problema sou eu, que quero muito e quando consigo pouco, acabo perdendo o foco. O problema é você, é ele, é ela, somos nós. O problema é a visão que cada um tem da vida, a visão que você tem de si. O problema dos outros é o que eles pensam de nós. O problema é o que acham que sabem de mim, o que eu não sei dizer mas só sei sentir. E por isso não me entendem. E por isso, sou uma incógnita complexa demais, para quem não gosta de resolver problemas. E o problema não é o que faço, o problema é a bagunça do que eu sinto, e acredite, sentir tem sido pesado demais, a ponto de apertar o peito. A ponto de explodir por dentro.
Mas que droga. Nem eu me entendo. Ou será que só eu me sinto num poço sem fundo? Ou será que só eu me perco nos meus próprios pensamentos? Ou será que eu talvez ainda não saiba o que é ser plenamente feliz? Dê o melhor sorriso, quem nunca nessa vida se sentiu em plena tristeza. E isso é uma droga, dá raiva, dá mais desânimo. Essa voz que fica repetindo num eterno eco dentro da gente dizendo: “Você não merece ser feliz!”. Essa voz que sabota, mas que muitas vezes a gente ouve. Será que estou sozinho no mundo dos que estão desacreditados nas pessoas? No mundo daqueles que sofreram dolorosas decepções? Será que estou sozinho em perceber que esperou demais, de si e dos outros? Que percebeu, que ao desacreditar no outro, também deixou um pouco de acreditar em si?
Acho que só preciso de um tempo, uma mochila e uma viagem sem rumo pelo mundo. Acho que preciso embarcar, para descer em outra estação, numa nova fase no futuro. Acho que só preciso parar de ouvir, para finalmente saber enxergar. Parar de sentir, para finalmente cicatrizar. Preciso parar de esperar as respostas que quero ouvir, para parar de perguntar. Parar de me ver como um livro velho, num canto ignorado da estante. Preciso silenciar, mas sem me sufocar. Preciso amar cada palavra dita, preciso deixar morrer o que me rouba, pois já não há mais lugar para lembranças ruins. Não há mais espaço para dedos apontados, nem para culpas, que no fundo nunca foram só minhas, mas que por maldade querem sempre que seja. E esse é o mal das pessoas, a maldade que carregam, disfarçadas por uma ou outra falsa bondade.
Na verdade, nem tudo que a gente acha que acabou, de fato teve fim. Mesmo quando a gente acredita ter dito tudo, ainda assim, não traduziu o que há de verdadeiro no coração. Sempre acreditei que os sentimentos não possuem tradução, estão muito além dosgestos ou atitudes. Mesmo quando a gente diz “não”, muitas vezes, acabamos sufocando um grande “SIM”. E meu problema é esse: o que eu sou e o que não digo, pois faz parte de mim ser um tanto imprevisível. Há uma parte de mim, um tanto incompreensível. A imensidão que mora em mim feito um oceano vira gota ao descrever em palavras. Sofro de excessos, de cicatrizes profundas, de histórias iterrompidas, não sou bom em desfechos.
E se quer saber, já cansei de forçar sorrisos e de fingir estar tudo bem. Talvez ontem eu realmente estive bem mas a verdade é que hoje eu não estou e preciso admitir. Mas isso não significa que alguém precisa vir pra sentir minhas dores, carregar minhas cruzes, sofrer por mim. A verdade é que quando alguém acha que precisa viver por mim, eu já perdi, eu já morri. Quando eu deixo de plantar felicidade nos outros, para plantar tristeza, eu já não faço bem. E fazer mal para alguém é tão nocivo que pode ser contagioso. Não quero uma tristeza compartilhada, quero toda a infelicidade sendo sufocada, mesmo que aos poucos. Não quero um choro compartilhado, um ombro para lamentar, muito menos um dedo apontado para me dizer o quanto estou infeliz e o quanto isso me faz mal. É um sorriso, uma atitude, uma surpresa, um afago, um conforto, uma sacudida. É um momento qualquer que me faça esquecer do lado ruim do que vivo. O que faz bem é a simplicidade. É o que o coração nos diz e a gente faz sem perceber.
Mas no fim das contas, só não quero ser o peso de alguém. Só não quero ser um sacrifício tão grande de ser suportado que acabe recebendo a fatura depois, com juros e correções. Não quero me sentir pressionado a melhorar por ninguém, além de mim. Agora não quero cobranças, só quero renascer. Sim, dentro de mim, feito fênix. Das cinzas, das tristezas, dos machucados, das decepções, das quedas. Só quero voltar a acreditar, como quem reaprende a andar, devagar, mas com vontade. Largando as muletas, pronto para correr para um abraço, para fazer as pazes com a felicidade, com o melhor que posso ser. Preciso voltar a acreditar, para voltar a saber onde quero chegar.
Por ora, só quero seguir rumo ao horizonte, para ver até onde posso ir. Talvez eu me surpreenda, talvez eu ainda esteja longe, mas continuarei a caminhada, mesmo de olhos vendados. Mesmo quando o que enxergo, não parece ter graça, mesmo enquanto a luz do sol, ainda não me faz enxergar além. Ainda não me faz enxergar o que realmente eu mereço de bom. Daqui da escuridão onde me encontro, muitas vezes só vejo renúncias. Só vejo o que ficou pelo caminho e não o que estou pra conquistar. Só vejo os tropeços no escuro e não a luz que já começa a surgir.
Hoje quero deitar a cabeça no travesseiro e colocar o mundo no mudo. Esquecer que o tempo passa, me livrar da obrigação de deixar tudo para trás. Simplesmente silenciar os medos. Me defender do que faz mal, me defender do inimigo que hoje mora em mim. Me fortalecer. Hoje só quero esquecer que estou infeliz, que tudo vem dando errado. Me lembrar que a vida nunca vai ser da forma que eu espero acontecer.
Talvez seja hora de finalmente abaixar a guarda, enfrentar as cicatrizes, me livrar das maldades que deixaram em mim. Me livrar das cobranças, deixar para trás o que no passado precisa ficar. Mas é difícil. Difícil se convencer de uma só vez. Mas vou tentar. Vou tentar dar o primeiro passo, mesmo com medo de cair, mesmo com a possibilidade de ver algo ruim acontecer de novo. Vou deixar que os dias passem e as horas voem, que os pensamentos ruins resolvam viajar para não mais voltar. Vou esperar que numa tarde qualquer, um sorriso me desperte. Assim, um tanto inesperado, mesmo que sem querer ou para corresponder àquele alguém. Não importa. Só espero como quem não espera acontecer, como quem se permite se surpreender.
Ainda acredito que sentirei a felicidade chegando de mansinho, fazendo morada, encontrando lugar pra ficar. Achando um espaço na bagunça para colocar a casa em ordem.
Hoje estou infeliz, triste, desacreditado. Hoje estou cansado. Sim, cansado de tudo. Mas nunca foi minha obrigação ser sempre feliz. Nunca foi meu maior crime me permitir entristecer. Talvez seja preciso aprender mais, para que eu encontre o meu mais belo sorriso. Para que eu encontre os mais bonitos significados. Talvez amanhã eu acorde e veja no espelho a resposta que sempre esteve em mim. Talvez amanhã eu possa fazer alguém feliz, sendo feliz também. Talvez amanhã eu me encante com o que hoje passa por mim sem ser percebido. Talvez…Ainda pode ser que eu descubra que pra ser feliz não é preciso procurar. Simplesmente, é uma questão de saber ter um outro olhar. Talvez o amor que eu sinta, me faça finalmente saber recomeçar, desta vez, do jeito certo. Eu vou tentar parar de evitar a vida. Eu vou viver. Talvez hoje um pouco mais do que ontem. Talvez daqui um tempo, seja pra valer.
Mas olha, quer saber? Eu vou fazer acontecer. Eu vou reaprender a acreditar, eu vou aprender que o que não me mata, só me faz ficar mais forte. Eu vou parar de recuar, eu vou lutar. Lutar, mesmo que a vida comece a bater com força. Mesmo que eu venha a cair de novo. Eu levanto. Eu estarei de pé. Eu estarei vivo. Mesmo com todas as dores, mesmo com o que vem me matando por dentro. Eu vou me curar do que está doente em mim. Eu vou ficar bem. Eu vou ser feliz. Mesmo que eu veja a morte de perto. Eu simplesmente não vou desistir. Aquilo que no fundo ainda eu sonho é questão de tempo. E ainda verei, que para viver e para amar, nunca é tarde demais. Eu vou recomeçar. Me espere e então verá até onde vou chegar.